NOS MEANDROS DA (RE)CONSTRUÇÃO


Olá, visitante-leitor. É com satisfação que o recebo aqui nesse blog.

Estive afastado dele, no entanto, hoje retorno, entendendo ser esse um momento bastante oportuno e especial para meu regresso.

Retomo, então, as publicações nele, reiterando o desejo de que encontre aqui motivos para futura volta, certo de que haverá algo de positivo para sua vida social e para seu mundo interior nessa página. Satisfação, reflexão e deleite serão pontos não negligenciados aqui.

Novamente, textos (poemas, contos, crônicas),
de minha autoria, ou de autorias outras relevantes, serão postados, também imagens, sugestões de livros, filmes, espetáculos diversos.

Seus comentários a respeito desse espaço muito me interessam e serão muito importantes para a atualização dele.

Envio um abraço a você.

Chico Araujo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: Toque - CHICO ARAUJO

Então, leitor, eis que mais uma vez festejo a possibilidade de minha escrita, pelo "Evoé!". Eis que renovo meus desejos de que realize uma boa leitura. Saudações. Até breve.





Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: Toque - CHICO ARAUJO: 18h.  Ele chegou como se estivesse como nos dias antes desse. Pelo menos foi o que transpareceu a quem, na espreita, o viu chegando. V...

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: O ponto agora é uma interrogação para adiante... -...

Em "Evoé!", mais uma vez Kelsen Bravos me concede a possibilidade de festejar por meio das palavras, essas maravilhosas companheiras de muitos anos. Agradeço e festejo: Evoé! A você, leitor, boa leitura.





Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: O ponto agora é uma interrogação para adiante... -...: 18h. Um longo e cansativo dia de não-trabalho.  Um não-trabalho é uma confirmação do não-homem. É importante ao espírito, à alma, a ...

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: Babel. - CHICO ARAUJO

É certo: muitos discordarão. Mas não escrevo para que pensem como penso; escrevo em revelação do que penso. Qualquer concordância com o que digo não dependerá somente de mim. Boa leitura, leitor.





Evoé! - Literatura, Livro, Leitura, Cultura Digital, Bibliotecas: Babel. - CHICO ARAUJO: Tenho refletido com frequência que muitas redes sociais são exemplo contemporâneo da bíblica “babel”, principalmente a que se estabelece p...

Seção de Contos




Dondinha
(Conto de Chico Araujo)






- Sai, Donda, me deixa em paz. Tu tá cada vez pior.

- ...

- Sai, já falei... sai...

Nem sempre fora assim. Antes, muito antes, bem que era os benquerer de todos. Criança dócil. Menina meiga.

Quando nova, mocinha mesmo, foi, de pouquinho, se avolumando. Ganhou corpo, bela menina-moça, exata. Pois veja que a partir desta época foi deixando de ser Francisca. Bem pouco antes desse deixar, porém, já morena jambo, feições finas, entalhe de traços firmes e perfeitas curvas, até antevisão de fama e muito dinheiro pelas passarelas do mundo, capa de revistas de moda e aparições em telenovelas foram aventados, numa projeção de discurso premonitório convicto.

- Anda, Dondinha, se manda, vai...

Ora, pois veja, então, antes não era assim. Quando Francisca era Francisca, andava saltitante pela vizinhança, ordeira e prestativa. É certo que ali não havia de muita fartura, que aquele povo tinha lá suas dificuldades, mas nada significando miséria. Mesmo nos limites muitos, entre eles alegria havia. Francisca no meio de tudo.

Pois veja que Francisca, aos doze, virou Andresa. De fato, descobriu alguém, essa menina leva jeito pras passarelas. E vai. E foi. A Andresa... Francisca é nome de pouco apelo, não fará sucesso no mundo da moda. Por conta do clichê, Andresa fez curso e mudou jeito de falar, maneira de andar, corte de cabelo, a natureza da face, os padrões de comportamento, enfim.

E Andresa se aplicou nos ensinamentos... e quando iniciou passos em passarela já dizia palavras diferentes, frases de efeito, gerando suspense... e fama. De certo, no muito que falava pouco dizia, porém criava a aura, que uma imagem se vende porque há quem dela se apaixone. E se imagine. E se deseje. Amém!

Andresa vai longe. Deus abençoou essa menina que vai sair daqui e vai conhecer o mundo, Essa menina nasceu abençoada e quando melhorar de fama num vai esquecer de nós, nem duvido, Do jeito que é bonita, vai indoidar muito home desses que gosta de ficar vendo muier de rivista – na calçada, pensamentos e palavras traduzindo imprudências (previsões casa adentro e rua afora – tia, tio, vizinho interpretando desejos e confundindo realidades). Ela num devia ter deixado de ser Francisca, chorava, a mãe, olhando velho retrato da menininha faceira eternizada entre flores silvestres de um jardim decadente. Na casa, tudo o mais expunha o cheiro do atraso.

Andresa foi longe não, aqui pertinho ficou, muito; umas três ou quatro vezes viu arranha-céus paulistas e no máximo duas pranteou vendo a Baía da Guanabara aos pés do Redentor. Ah, mas também viu Pelourinho e sentiu o cheiro do Capibaribe. Não mais. Dedicou-se, dúvida não há, mas não houve tempo. Quem nunca come mel, quando come se lambuza. Lambuzou-se.

Como a pressa é inimiga da perfeição, quem corre, cansa, quem anda, alcança... Cansaram-se. Pois então veja: por estímulos, Andresa foi com muita sede ao pote. Pudera: já não se havia Francisca. No espelho, a outra era quem sorria. A menina, perdera-se entre as poucas capas de revistas, pequenas frases-clichês em jornais e uma semana de roupa íntima em outdoor.

Tudo de doze a catorze. Mas eis que a viva roda do mundo da moda e das celebrações às celebridades levou a menina para um giro intenso, tenso e desconhecido. E desconheceu-se. Mas essa menina tá indo com muita sede ao pote, Linda, não? Linda demais!, Sim, muito bonita a jovem, Muito bela, realmente, Gatíssima, Tesão! E está pegando pesado, alguém tem de dizer a ela pra ir com mais calma, mais devagar, Que nada, se preocupa não, tá, gostoso, sei quando parar.

Parou aos quatorze. Não por saber. Não por querer:

Musa do momento entorna desfile internacional.
Jovem modelo aspira pó e inspira cuidados.
Estrela decadente cai na passarela.

Pouco conquistou, tudo perdeu. Agora tá aí, de novo, na casa pobre dos pais. Infeliz. Tinha tudo pra nem voltar mais aqui, se quisesse, Boba, Ingênua, Se deixou levar pela conversa dos bichões lá, pois é, se meteu com quem não devia, E se dizia esperta, ainda, a tola, Esperta!? Pois sim: tolinha mesmo. E agora é isso aí, perambulando pelas casas, perturbando todo mundo com aquela choradeira de que foi enrolada. Pois sim! Tenho piedade não. Tenho piedade não, Nem olhava pra nós quando tava no bem-bom, Mas num podia, criatura, como que a bichinha ia ver nós se só vivia naquelas viage, naqueles curso que num acabava mais?, Então, foi nessa de só escutar aqueles lá que ela se estrepou. Tenho pena não, num tenho mermo.

- Me larga de mão, Donda. Já falei. Vou acabar fazendo besteira.

Fora sempre assim não. E desta vez, ela saiu, cabeça baixa, empurrada pelas mãos grosseiras do amigo de infância e pelo resto de noção das coisas que ainda tinha. Sentia, mais do que sabia, que depois dali... Não havia mais respeito, consideração nenhuma mais.

(Querida e festejada quando criança, pois alegre, amiga, espontânea; desejada quando adolescente – teve lá sua fama, sim, e ganhou algum dinheiro, sim, tanto que agora estava com os pais sem precisarem de pagar aluguel. A casa era a mesma, que eles não quiseram deixar os amigos para trás. A situação era outra, porém. Agora, nem menina, nem moça, nem criatura agradável de ver, de desejar).

Dessa vez ela não vociferou nenhum palavrão, saiu de perto do ex-amigo, de olhos no chão e boca seca. De cima distinguia seus pés em passos incertos no asfalto quente do meio-dia. Sentou-se na coxia, admirando o cruzamento da Rua da Felicidade com a Rua da Esperança. E foi ali que, ao que se sabe, pela primeira vez chorou, vendo as lágrimas vertidas respingarem os pés mendigos e descerem para o preto do chão. Simbiose. Não foi pouco o pranto, nem a expectativa de quem a olhava, de longe, percebendo o sacolejo do corpo espasmando-se – uma dor intensa, há muito calcada, ali e agora não mais adormecida.

Rua da Felicidade. Rua da Esperança.

Quem intuiria ali um cruzamento-negação? Desde pequena soubera que chegara da maternidade pela Rua da Felicidade, nos braços do pai, que a mãe vinha de lado, nele se apoiando, ambos devagar, sorrisos largos, felizes na cidade que os acolhia desde a retirada do sertão seco, arruinados, pedintes. A prefeitura dera trabalho de pouca renda, mas honestos, simples, amigos conquistaram amizades certas e de modo certo puseram a vendinha. Sobreviveram.

Todos viram, em festejo incontido, quando a menina Francisca enveredou pela Rua da Esperança em busca de abraçar-se ao destino. Acenou, sorridente, Andresa, e subiu no automóvel que a esperava além da pracinha. No outro aceno, alguém afirmou ter visto um risco de lágrima amparado pela mão.

Agora, do bar, Dondinha era observada, enquanto do antes ela via, na Rua da Felicidade, uma menininha encantando sua família e a vizinhança, com a leveza que existe na inocência, com a perspicácia que existe na sagacidade. Já sem soluços, estremeceu ao ouvir de longe, muito de longe, uma voz materna chamando Francisca... Francisca... Onde cê tá, menina?... Francisca, oh Francisca! Onde cê foi? Onde você foi?! Onde você está, Francisca?

Essa rua é de ontem, de muitos e distantes ontens. Um fungado, as costas da mão limpando o nariz escorrido do choro. Nela Francisca brincava de roda, de pega-pega, de carimba, de adivinhação, perto de pai e de mãe – anjos guardando –, comandando os companheiros. Entre flores bem tratadas e árvores copadas e antigas, entre bancos de madeira e canto de pássaros. A pequena praça vibrava acesa, quando nela a menina Francisca esbaldava alegria.

- Tenho pena da Donda! Dondinha... Êta vida cruel... Lembra, seu Chico, como era bonita? Desejei muito ela... Dondinha... Pensei até em casar com ela...

- Pois é, eu me lembro dessas suas vontades. Hoje fica aí, botando a coitada pra correr. Êta, vida cruel...

- Tenho culpa não, seu Chico... Tenho culpa não. Depois que ela entrou naquele negócio de moda... O senhor lembra o que fizeram com ela? Menina ainda, primeiro aquele cara lá que descobriu ela pra desfile seduziu ela e deixou ela depois, lembra? Até mandou ela fazer aborto, lembra? que a mãe dela disse e chora até hoje por causa disso... Pois é, depois nunca mais quis saber da Andresa porque ela tava demais nas drogas, num foi isso mesmo?

- Foi aí que ela começou a não ficar bonita, foi engordando, inchando, se deformando mesmo. Dona Santa falando que os médicos diziam que era das drogas...

- Pois é, seu Chico, e foi nessa época que eu disse pra ela que ela tava ficando redondinha. Falei brincando, ela riu, achou engraçado. A gente com certeza gostava um do outro. Aí eu abreviei e chamei ela de Dondinha. E pegou, né, seu Chico, pegou mesmo. Todo mundo passou a chamar ela de Dondinha. Nem teve nunca zanga dela. Dondinha...

- As coisas mudaram muito, meu rapaz. Você mesmo chamou ela nesse instante de Donda. Tinha nada de gostar, não.

- É, seu Chico, mudaram mesmo. Nunca mais que ela foi a mesma, nunca mais que teve alegria mesmo, de verdade, nunca mais ela teve valor pra ninguém. Caiu mesmo. Nem emprego, nem amizade. Só nessa vida de aperrear todo mundo pra pedir pra alimentar o vício. Aí ela vem e me aperreia, fico logo com raiva e qualquer carinho vai embora. Às vezes até desejo nunca mais ver ela...

- Ela era bonita mermo, heim, seu Chico?... Num era Zeca?

- Ouvindo conversa alheia, Alcoveto?

De um recanto do bar, outra voz, tom solene e embriagado: Tudo muda um dia.
...

- Cadê o sol, seu Chico?

- É mesmo, Zeca, já tá anoitecendo?...

Foi de estranhar, mas os primeiros fracos pingos da intensa tempestade caíram cerca de quarenta minutos depois do meio-dia. Primeiro um vento impetuoso e seco foi soprando folhas secas e papéis velhos pelas ruas já vazias. Depois, tarde anoitecida, um ventanejar molhado açoitando portas, janelas, vidraças, telhados e arrastando cadeiras, bancos, raízes e erguendo e lançando em rodopios chita, pés, olhos, esperança.

- Cadê a Donda, seu Chico? Cadê Dondinha?

- ?

...

Na tarde, o crescendo das águas escorrendo em fúria – céu e rio indivisos numa ferocidade aterradora, inundação em curso – o pavor se esboçando em olhos incrédulos e investigativos.

Rua da Felicidade. Rua da Esperança.

Cruzamento de destinos. Entrechoque de tempos. Encontro das águas acumuladas pelas secundárias de declives concorrentes para ali. Remoinho.

Na Ave-Maria estrelas não brilharam, mas a chuvada foi a chuvilho que peneirou, peneirou até não mais descer.

Na noite, o acúmulo das águas invasoras, denúncia da união de céu e rio, desde a tarde indivisos, desde a tarde ferozes e aterradores, inundação confirmada nas ruas, nos logradouros, nas paredes das casas, dos comércios e sentida nas vestes, nos corpos, nas perdas – o pavor (obra realizada) nas lágrimas dos olhos aflitos, incréus, derrotados.

- E Donda, gente?

- ...

...

Ela num devia ter deixado de ser Francisca, chorava, a mãe, olhando velho retrato da menininha faceira eternizada entre flores silvestres de um jardim decadente.

Em compasso de espera

(CONTO DE CHICO ARAUJO)



É obvio que sei do mundo existindo lá fora, abrindo rumos para cada um, mas tenho também enorme consciência do que sinto, do que penso, do que quero. Meu destino agora é aqui, vendo o fluxo dos dias exaurindo-se na claridade do sol que banha as telhas de luz, na escuridão manchada do telhado que observo, sobrevivendo em noites de soluços. Os convites, eu os agradeço e guardo-os sob as dobras dos sentimentos de saudades que ninguém vê, mas que correm em meus dias silenciosos e contínuos – sangue em minhas veias – determinando-me ficar. Um dia as veias secam!

Meu ritmo de existência, uma esperança diferente no sopro das horas. Ninguém pode entender, porque somente no silêncio se vislumbram pulsações represadas atrás dos olhos. Lá fora, a vida hoje é muito ruidosa. E eu vivo em castelos enormes e repletos de passagens secretas à minha estação de sonhos, onde outros não alcançam as imagens ali criadas, onde comando meus suspiros no sossego poderoso da solidão.

Às vezes quero entender a procura de mim por quem me está ao redor; entendo, então, o doce carinho que gostaria de sentir dos lábios que me chamam, quando experimento, nos sons emitidos, a vibração de palavras que me chegam sem cheiro, sem cor, sem gosto. Elas me tocam os ouvidos, sinos que se ouvem badalar lá longe, sem que se possa tatear a distinção dos porquês. Nessas horas eu olho e falo de onde estou... em silêncio...

É preciso dizer “não!” alto e bom som para que as pessoas escutem que seus apelos têm ressonância zero em meus desejos? Ah, a vida é tão outra para as pessoas, qualquer pessoa, mas sempre chega-nos o ímpeto de guiadores, de condutores pelos caminhos certos, pelas passagens seguras, pelas alamedas arborizadas e floridas, pelos rastos de luz inefáveis do bem. Eu sou minha condutora, desde há pouco – não muito –, desde agora para sempre. É sempre bom ficar aqui onde estou, olhandosentindoaspirando esse espaço que tanto me dizem, sem eco a ninguém.

As paredes que cercam meus labirintos são a minha companhia. Eu as indago tantas vezes no dia-a-dia, que elas se compadecem de mim e me respondem, ora fazendo erguerem-se imagens (silhuetas profundamente conhecidas de tão únicas tecendo traços de carinho, movimentos despertados de sorrisos sem parcimônia), ora rumorando discursos que minam das saliências de tempos de antes. Com a cumplicidade delas eu o vejo se espalhando pela casa já não mais deserta, de novo arrastando os chinelos, indo e vindo pelos vãos novamente povoados, outra vez imprimindo pelos cômodos passos de tranqüilidade, rastros de uma paciência que se estendia até muito além do infinito.

Da memória erguem-se, assim, impressões que fixam em meus olhos úmidos vibrações de saudade. Nessas horas, um arrepio intenso e certo se dilata de um esboço que reconheço e preencho pela recuperação de traços firmes e meigos, percorrendo uma existência que se agita em mim em gritos inaudíveis. Minhas mãos tremem e acariciam um semblante de boca sorridente e amiga – à distância, os que não sou eu diriam, em assim me vendo (nunca me viram?!), que a insanidade amofina minha consciência.

Depois tudo se desvanece, névoa fria em montanha, soprada pelo vento, beijada pelo sol. Meu corpo, então, se aquece novamente, e agita-se como que revigorado para mais alguns instantes que não atino se duradouros. O que me alimenta, sei, é a presença muda, mas inequívoca. Eu a sinto, ela é certa. Não poucas vezes ela me toma as mãos e o rosto e beija-os com os lábios amigos de um amante humilde e cordato. As lembranças acendem gestos que bem mais do que sugestões são atos de tão concretos.

Eu gosto de ficar aqui e de vibrar sozinha com essas sensações que me eriçam a pele, que me põem na boca um doce sabor de vida e nas narinas um aroma significativo da paz que busco, que desejo intensamente, esperançando a hora na qual acredito se dará o definitivo encontro.

Quando não poucas vezes desço dos sonhos em minha rede e trilho outras lembranças pelo piso entre os aposentos da casa, é como se não estivesse ali, naquele momento mesmo em que minhas sandálias vão vincando a poeira acumulada nos vãos, inevitável. Será que levito? Quem me conduz nessa caminhada que sempre, sempre me surpreende por entre as frinchas inesgotáveis de memórias.

Quantas vezes não se sentou ali naquele sofá que, de repente, amarfanha-se e se afunda ao peso certo da posição meio de lado, as pernas semi-afastadas, o olhar percorrendo o desvelamento de tantas notícias saltando das páginas do jornal, de quando em quando se sacudindo pelas mãos desejosas de maior visibilidade? Ah, memória tão viva – que se eterna, enquanto eu estiver – que chego a ouvir o gesto do papel abrindo-se em mais um balanço das folhas encadernadas.

Quando me afundo, eu mesma, em minha poltrona hoje predileta, é para respirar essa dimensão de existência que somente a mim cabe visualizar. Um dia escolhida, hoje eleita... convicção silenciosa guardada para meu deleite e prazer – talvez o único que ainda se insinue como chama a arder, combustível dos dias retendo-me aqui, que me arrasto entre uma luta feroz e uma vontade intransponível. Qual força vibra nos mais jovens? Que labaredas alimentarão o futuro deles?

Em meio às questões a imagem se despede surpreendente, deixando em meus olhos duas vontades de encontro escorrendo livre pelas faces. Onde desembocarão as águas desse rio a cada nova manhã mais caudaloso e impaciente? Ergo-me da poltrona sem saber que semblante estampo no rosto, flagrada que fui na ação de desviar o rumo das águas correntes para nova represa. Carrego, então, nos dedos das mãos a mentira de irritação nos olhos, e me encaminho (atriz de gestos e palavras persuasivas) aborrecida para a cozinha, onde bebo uma água fresquinha, em companhia que abandonara em alguma sombra os jornais e viera refrescar-se também.

Segredos! Quem não os tem? Quantas vezes por dia preferimos a ebulição de nossos pensamentos à seqüência ruidosa e incompreendida de nossas vozes não poucas vezes intrometidas, inquietadoras, soando quase arrogantes? Ah,... todo mundo é assim. Há pouquíssimo de revelação e muito de encenação. Quem quererá ser descoberto por completo? Pelo tanto que já vivi, sei que ninguém gosta de ser alcançado em seu cerne. O âmago de tudo, entendo, é sempre um viés, que pode até arranhar o invólucro, de tão perto que chega, contudo será eternamente viés.

As palavras dizem muito. Dizem tudo? Às vezes, nada. Palavra alguma se faz por si mesma; toda e qualquer palavra passa a ser quando se associa, quando se soma, quando se acasala em discurso efetivo. Entretanto, atentemos aos discursos: Como se construíram? Por que se construíram? Para que se construíram? Nossos dedos podem ser discursos, lançando, inapelavelmente, nossos rios para abissais represas, ininvestigáveis abismos de solidão.

Os gestos de impaciência das mãos nos cabelos de fios revoltos, a velocidade do copo jogado para o atrito com a pia, o olhar que penetra lugares onde o dos outros jamais alcançará, o caminhar lento e pensativo arrastando-se pelos cômodos, o esboço de sons sem pronúncia em lábios trêmulos... tudo isso e muito mais diz bastante além de qualquer palavra escolhida, medida, sopesada para a edificação dos discursos.

Por isso me interpelam (Está bem? Tá sentindo alguma coisa? Por que não sai?). Enuncio quase nada tanto em quantidade quanto em profundidade e ninguém me lê os olhos, os gestos nas mãos, o ritmo dos passos, os suspiros constantes, o alheamento, o abandono de quase tudo, até de mim mesma, o enclausuramento... (ou não quer se dar, de verdade, a esse trabalho de investigação. Investigar carece de método, de determinação, de objetividade, de atenção, de acompanhamento, de obstinação).

Minhas respostas lacônicas um pouco incomodam, mas logo em seguida seguem o caminho do esquecimento, cada interpelante vai ruminar sua solidão insuspeita, cada um acreditando nos sorrisos fáceis das brincadeiras fúteis, todos fingindo uma alegria inexplosiva, imaginando o abeiramento certo do alcance da felicidade.

Sei que a seus olhos certamente encontro-me amarga, seca, sem graça, deprimida. Talvez isso seja certo, mas ninguém poderá afirmar convictamente que estou enganada, errada nos meus posicionamentos e observações. Mas aceitarei que me diga contraditória quanto ao fato de que as palavras dizem pouco, ou nada dizem, uma vez que estou fazendo uso delas para falar a você. Construí um discurso através do qual rompi o silêncio. Apesar disso, ainda posso me esconder por trás de uma possível dúvida a insurgir-se nas vibrações de seu ser: verdade ou mentira, ficção ou realidade?

Enquanto a tarde mais uma vez se deixará envolver pela noite (a noite... metáfora?), revisto todos os aposentos da casa que já já entrará na quietude, todas as presenças se farão ausência, e eu poderei mais à vontade cogitar minhas especulações, minhas sensações, minhas impressões, minhas certezas. Depois, em meu quarto, já mais tarde ainda, poderei sossegar em um balanço de rede que não explico, mas que me embala, saudade mística com poder de me falar por cândido toque nos pés descobertos do lençol.

Em paz adormeço, nesse compasso de espera...



NATUREZA VIVA

NATUREZA VIVA
Sempre viva, sempre linda.

SEÇÃO DE POEMAS

REBENTO



Carrego em meus braços uma extensão de mim
Que não é minha imagem
Mas tem meu pulsar nas veias

Enquanto me abençôo dele
Nesse corredor deserto
Me recupero de minha desistência
De minha passividade quase destrutível

Olho-o, ainda aflito,
E me reintegro
Quando ele me olha... em paz

Seus gestos são de carinho impensado
Seu sorriso invade meu silêncio angustiado
E pulveriza um temor contido
Um temor não identificado

Na noite, eu o carrego nos braços
Enquanto ele me nina sem o saber

Olho-o, quase aflito ainda
Mas ao tocar-lhe as mãos
Sinto-me incorporando-me dele em mim

E, assim, sou de novo eu em mim
Pequenininho, crescendo, me agigantando
Dimensionando a criança que é ele
No despertar da criança que há em mim.

25/09/98



PARTIÇÕES




Madrugada
Uma ânsia cega
Acende
Um grito-explosão

A palavra liberta...
Nasço!

A corrente sem elos
Cristaliza um novo sentido:
Nasço!

Sem grilhões
Sou cárcere
De um momento liberto.

Nasço!
Livre?
29/09/98



SENSAÇÃO



Olho os objetos dispersos pela sala
Como quem vê no passo futuro
O sabor amargo
De uma saudade
Intensamente triste.

Dores calam-se
Ante o sufocar
De palavras vibrantes
Sem audição

Que seres somos nós
Tão indiferentemente
Enovelados
Na existência do outro?

Até onde sou o que sou
Sem ser o que o outro é?

Somos somas...
Somos inteiros
Quando somos partes
Que se entrecruzam
- interdependência!

Nenhuma flor embeleza
Sem a bênção da terra
- interdependência!

Nenhum sorriso se alarga
Sem o prazer do instante
- interdependência!

Nenhum ser humano é
Sem a humanidade do outro
- interdependência!
Os vazios carecem de complementação
Assim como as dores desejam lenitivo
Assim como a saudade precisa de recordação
Assim como os momentos
Se encaminham à revolução

Porque a palavra vibra calada
Porque o silêncio camufla a arrebentação

Embora o abismo permita emersão
A dor desespera
E o sim... emite não!

23/09/98



ABISMAMENTO



No estar só no quarto
Bebo do frescor da solidão
Que habita essa noite dúbia
Imprevisível, inexata

Uma brisa tênue
As persianas da cortina vence
Invade o ambiente semi-escuro
E acorda em mim
Um desejo de sono e ausência

A cama é um convite
Que recebo e ignoro

Uma palavra não liberta
Arde, trêmula,
Num peito que se aflige
Do silêncio por cárcere

Sou um grito, agora,
Que a angústia da não vociferação
Atordoa e abisma

O abismo é o homem
Que não se curva,
Mas não se ergue!

23/09/98


Todos os poemas acima compõem o livro VERSOS DE SETEMBRO E OUTRAS INSURREIÇÕES, de Chico Araujo, lançado no dia 11 de setembro, às 19h30m, no Espaço Cultural Fides et Virtus, na Faculdade Christus, sede D. Luís, Fortaleza (Ce).


Carpe diem!



Os versos vão-se tecendo pelos fios
que poetas, de agora e de antes, desenharam;
as linhas desse tecido fazem a costura
demarcando, com palavras, a imbricadura.

Poetas são seres incríveis,
que amam e amam e amam inevitavelmente;
entregam-se a seus amores integralmente,
fazendo alegre palpitar da vida dura.

Poetas se espalham, se constroem e se desnudam,
pelos termos e expressões que são sua cria;
e como deuses fazem do triste a alegria,
e seguem em frente, e sempre mudam...

Encantam-se, os poetas, de coisas simples
que quase sempre não são vistas pelo humano;
e ascendem da simplicidade o seu canto,
e cantando declaram amor ao carpe diem!


Chegada


Sou da arte desde menino
Quando para a adolescência passava
À época, tudo que via gerava
Vários sentidos... indefinidos...


Fui atraído deveras pela leitura
Consumindo palavras fui existindo
Aos apelos contra, resistindo
Sem saber que travava minha primeira luta.


Poesias e ficções foram-se chegando
A minhas mãos, meus olhos, minha cabeça
Que tudo arquivava direitinho...


Hoje exponho meus tecidinhos
Versos com cheiros de Fortaleza
Cidade onde cresci amando.


Gritos

Os versos de agora são novos cortes,
Vísceras expondo-se no mel das palavras;
Um doce/amargo...
Um sal que é vida...
Um grito que é açoite...


Cada metro expresso não é linha:
é fluxo e re-fluxo de tramas inacabadas,
pulsações,
sangue-rio...


Recortes de desejos que se insinuam
na púbis,
na pele,
nos fios de cabelos beijados pelo tempo,
nos pêlos que descobrem o corpo...


Certa hora, um vulcão explodirá lavas quentes
de intenso e magnífico prazer - Eros redivivo;
Então, não se verá uma erupção a partir de mim,
mas eu mesmo me lançando,
após romper os travos silenciados em mim...



Os três poemas acima, de Chico Araujo, compõem o livro PoeTravessia, escrito em parceria com a poetisa paranaense Sandra Almeida.

Os teus olhos

(Poema de Chico Araujo escrito para Sulling Araujo)


Pois os vejo assim, cristalizados,
no aperto de um sorriso espontâneo;
um momento especial, um sonho,
um desejo de que possa eternizá-lo.

Sim, eu os vejo, apesar da compressão,
exigência do sol e da alegria;
há muita beleza nessa imagem e dia,
há encanto expresso na emoção.

Oxalá, um dia, eu consiga
fazer de um instante assim a eternidade,
gerar do teu sorriso paz e luz;

aí, é certo, retornarei do lugar onde me pus,
para, quem sabe, alcançá-la de verdade
no mel dos olhos, num abraço de delícias.

Teus olhos

(Poema de Chico Araujo escrito para Sulling Araujo)

Teus olhos
mesmo em dor
são belos...

Belos como o nascer
de aurora insuspeita
como o grito
de voz insurreta

São belos...
como a paz que se deseja
como o pássaro que passeia
em manhãs
de sol e canção

Belos e doces e meigos
mesmo que envolvidos
em lágrimas de não alegria...

Teus olhos me acompanham,
me envolvem me aliciam
alma e corpo
e me inspiram poesia...


LÁGRIMAS SANGRENTAS

(Poema de Chico Araujo escrito a Cacau Gonçalves)



Lágrimas em sangue
Uma alma
uma sentença

Vou pela estrada
Já sem inocência
Sou estrela nova
Um novo brilho

Sou o que sou
Poeta, sou expressão

Vibração intensa de mim em mim
Querida e necessária experiência
Minha vital sobrevivência...


náufrago


fecho-me em cerradas portas

adentro noites

nos silêncios em mim

correntes se arrastam

no peso dos tempos, enfim


o que sobra soçobra - deriva

lado para lado, a esmo

sumo-me, num segredo

que nem sei

quando estou sem mim


nem sei mais se ainda grito...


enquanto tremo - vibrando o açoite

rasga-se minha alma

sou um não?

sou um sim?


Chico Araujo

11/03/2011

Conversando com o poema A INTRUSA

de Cacau Gonçalves












"NOS DIAS DE HOJE"


Nos dias de hoje, já nos disse Ivan Lins e Victor Martins, é bom que estejamos protegidos. Quem tem Fé, que siga a palavra a de Deus. Quem não a tem, que se fortaleça em algo que lhe sirva de fortaleza. Mas... é bom que se proteja.



Nem sempre será necessário oferecer a face, contudo, quase sempre será urgente o uso de prudência, ponderação, argúcia, poder de antevisão de fatos.



Hoje que é quarte de Cinzas, os telejornais informam o número de mortos em acidentes e em crimes passionais ou não. Numa bebedeira entre amigos, um atirou no outro por motivo que ninguém soube informar.



Bebiam social e animadamente suas cervejas e de repente...



O poeta já falara que "Os jornais só publicam notícias ruins". Apesar de não concordar 100% com essa afirmação, afirmo que estou de acordo em, pelo menos, 99,5%. É que o restante quase ninguém percebe, quase ninguém lê.



Por exemplo: um casal de namorados comemorou a dupla aprovação em vestibular da FUVEST. Bacana isso, não? Avalio, então, esse dia como de cinzas, sim, para muita gente; para muitas outras pessoas, as Cinzas serão ato religioso fervoroso e de muita devoção; já outras, também muitas, mais um dia de Carnaval, porque ninguém é de ferro, o santo é de barro, "Amanhã vai ser outro dia", "Não temos tempo de temer a morte", e trelelê... tratalá...







HOJE JÁ SÃO 17



Meu grande parceiro na música exclamou certa vez: "Tão breve é o tempo / correndo assim / Cavalo selvagem / Não tens arreio / Ninguém te domou"... É, estava certíssimo o grande Mattheus, e ainda está. A letra dessa música nunca morrerá, pois acompanha o tempo...



E o que podemos fazer? Tentar segui-lo nos passos incertos: o futuro, somente se saberá quando... já não o for. Nesse instante, esse domingo do segundo mês do ano vai se encaminhando para a noite mais profunda. E o que fizemos? Cada um que faça a sua reflexão.



Nos esportes, alguém ganhou e alguém perdeu; na política, nem os políticos ganharam, pois tudo o que fizeram hoje lhes retornará. Fora do país bombas explodiram; lá e cá, pessoas deixaram saudades eternas nas lembranças amigas e carinhosas dos que as amavam.



Músicas, se fizeram ouvir; danças, se fizeram ver, assim como as peças, os filmes... E eu, não deixei consumir totalmente pelo trabalho...



"Amanhã, vai ser outro dia / Amanhã, vai ser outro dia"...









NA TARDE DOS 20

Cravadas: 14h. E como era óbvio, ontem e antes de ontem foram... outros dias. Algumas páginas de calendário foram viradas e outras, arrancadas, com vontade semelhante à do professor da Sociedade... Mas a sociedade não tem jeito, não se educa para as mínimas ações cidadãs.

Enquanto rodavia pela Rodovia Santos Dumont, pelo menos umas cinco vezes, de automóveis que corriam à minha frente, quase era acertado por ponta de cigarro, lata de refrigerante, garrafa plástica de água. E eu me perguntei: Por quê?

Quando cheguei a meu local de trabalho, próximo a uma escola que atende a pessoas visilmente abastadas, abastadíssimas mesmo, não consegui ir adiante. Quem quiser rir que ria; até quando ficar literalmente parado, durante aproximadamente cinco minutos, esperando que o trânsito seja normalizado, ao serem desfeitas as filas... duplas... e triplas (Pode um negócio desses? E ainda tem gente que desce do carro e o deixa TRANCADO!!!).

Enfim, fui adiante e cheguei onde devia. E constatei que o dia fora diferente, enquanto a cidade adormecia igual: suja, entupida de automóveis sem trafegar, esburacada, com gente velha esmolando um trocado pro café e crianças azarando troco pro crack.

"Êta vida besta, meu Deus!"

NA CASA DOS VINTE E DOIS

O tempo impreciso dos homens está marcando 12h56m. Antes de ontem boa parte do mundo pôde parar sua correria insana. Delícia de permissão ao contemplamento de uma linda lua, redondona, cheiona, que se viu - e nos permitiu apreciar - sendo coberta pela Terra. Eclipse total!

Deitei meu corpo e cabeça em banco caseiro e soltei meu olhar para um céu lunar cercado de estrelas piscantes. Sem atrapalhar, algumas nuvens se divertiram com os olhantes, encobrindo, vez ou outra, a "bela da noite". Meu corpo foi beijado docemente pelo afável vento; meus olhos perseguindo a musa.

A belíssima frescura da madrugada me envolvia enquanto clicava aquele desaparecimento magistral. Raro momento; belo presente. Recebi-o com felicidade, e agradeci-o libertando-o dos pixels e expondo-o aqui, na web.

A vida tem momentos simples de vital relevância. Mas muitas vezes os desprezamos, os ignoramos, nem mesmo os queremos ver. "E a vida sempre nova acontecendo de surpresa / caindo com o pedras sobre o povo" - canta-nos Belchior.

Eu já versei em canção parceira com Matteus Viana:

[...] Corre-corre nas ruas / que é que foi, ninguém viu / pois já passou / E na luta diária / um sorriso perdido / se estraçalhou no chão [...]

Cada momento é inenarrável, indescritivelmente um único acontecimento inigualável, insuperável de tão esplendidamente um. Nada se repete; tudo, genuinamente, É!

JÁ NA TARDE DO VINTE E SETE

É engraçado (é?) como não conseguimos fazer os acontecimentos do jeito que gostaríamos, do jeito que preferiríamos, do jeito que amaríamos. Tão pequenos somos, tão ínfimos que as forças movedoras de nossos entusiasmos têm duração breve, não vivem o nosso tempo de vida.

Não é à toa que muitos de nós morremos antes da morte nos enlaçar e transportar para... Não lembro quem disse (perdoem a falha de memória, mas ela também tem dias e horas contados), contudo a frase é lapidar: Os sonhos morrem primeiro. Compreendam, se o homem vive de sonhos,...

Como estou sempre entre palavras - e torno público o meu amor incondicional a todas elas, quando utilizadas no momento preciso - sei, por ouvir, ver e sentir que elas podem nos levar até céus, ou nos fazer arder em infernos inenarráveis.

Na voz popular de Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil) o verso seguinte virou bordão: Porque o mal é o que sai da boca do homem... A frase original é bíblica, o sentimento de quem escuta o "mal" proferido por boca humana próxima, não. Mas... o que seria esse "mal"?

Sem filosofia, a transformação do amor pelo próximo em raiva, ódio, desprezo, indiferença veiculados como sentimentos de forte carga emotiva negativa direcionados ao... ex-amor! Uma boca que ama não diz impropérios; uma boca que ama não acusa sem argumentos de prova; uma boca que ama não ameaça. Mas, a boca que ama é... mera metonímia! O que se esconde por trás dela, então?

Tanto já se falou sobre a palavra, não é mesmo? Drummond, Bandeira, Moraes, Gullar, Cristina Cesar, Buarque, Eller, Gil, Veloso... e nós não nos damos conta dos ensinamentos que elas, em si, carregam como chama de significados. Que minha palavra seja precisa, usada sempre no exato instante.

NO SEGUNDO DIA 29 DESSE ANO BISSEXTO

Deu nos jornais: um jovem, em São Paulo, matou uma criança porque ela o irritava. Ele reclamou e foi atingido por ela na genitália. Estrangulou-a. Guardou o corpo dentro de sacos, em sua casa. O pai viu o corpo. Perguntou sobre o acontecido e o jovem contou. O pai chamou a polícia e revelou o crime. Seu fará exames para se saber de sua normalidade mental.

Foi-me difícil ler a notícia; cruciante está sendo escrever sobre o fato. O que me pergunto, em primeiro, é sobre os sentimentos dos pais da criança morta e dos pais do jovem criminoso. Duas angústias intensas que me persuadem a diferenças.

Também sou pai. Peço a Deus para nunca ficar em nenhum dos lados de acontecimento semelhante. Sempre é muito difícil estabelecer um julgamento coerente capaz de iluminar com clareza o posicionamento que devemos ter.

Em relação ao fato ocorrido em Sampa, é natural a revolta nos pais e outros familiares da criança falecida. A dor é profunda demais quando nos afastamos bruscamente de quem amamos, de quem queremos por perto, vendo alcançar vitórias na vida traçada com bênçãos divinas. Quando um laço tão forte quanto esse se parte - ou é quebrado - o ser que permanece fica incompleto. Jamais poderá ser o mesmo.

Também na família de quem cometeu a barbárie, seria natural a criação de um "cordão de isolamento" para proteger o filho. Sangue do mesmo sangue. A célula que significa a perpetuação daquele tronco familiar.

Mas não houve proteção? Mesmo em domínio de angústia profunda, invoco que o instinto paterno foi o da proteção. Proteção do filho, por reconhecer, através do ato cometido, a necessidade de que nada fosse escondido; proteção da família da criança, no sentido de que não se propagasse nela a violência sofrida em novo ato de violência; proteção de si e da sociedade, por acreditar que a entrega do filho à Justiça era o melhor a se fazer naquele instante.

Eu especulo; nada acima pode ser afirmado, a não ser pelo próprio pai denunciante. Mas, é certo que, com sua ação, no mínimo uma reflexão todos devemos fazer: Olhemos mais nossos filhos, pois precisamos compreendê-los, interpretá-los, advinhá-los, amá-los. A Paz de que o mundo precisa não está solta nele; deve existir livre dentro de cada um de nós!

ESTA LEITURA DEVE SER FEITA

A manhã havia sido como as anteriores mais recentes: um suplício de angústia em silêncio deliberado. Palavras de consolo chegaram e a perspectiva em relação ao restante do dia melhorou. Com a melhora, o relaxamento e o riso. Um alívio!

Porém, sem compreender como, a possibilidade de um conflito armado na América do Sul, decorrente da prepotência de alguns dirigentes radicais, trouxe de volta a sensação de impotência, de tristeza, angústia e solidão.

Mas, que droga! Eu deveria estar criando poesias, letras de músicas, fotografando borboletas em meu jardim, beija-flor nectando-se nas flores. Perdi tempo feliz de vida nessa amargura dispensável.

Pois veio o sol a pino e com ele chegaram meus filhos, da escola, perguntando como eu estava, como eu me sentia. Três abraços sorrindo pela alegria de voltar à casa. nem lembrei mais do que sentia antes.

Após um banho extrator de calor marcado pelo suor no corpo, à mesa posta, entre garfadas e colheradas - acho a colher mais atraente que o garfo, pelas formas que ambos possuem - a conversa amena, as histórias breves e pueris dos acontecidos nas salas de aula, a apelidação a professores (isso eu condenei, né?), a sugestão de pesquisa em trabalho de disciplina motivadora para o pesquisador.

O equilíbrio. A satisfação. Olhei meus filhos de maneira que não afirmo já ter olhado antes... Depois deixei-me perder nas emoções de pensamentos distantes, contudo bem prazerosos.

Almoço findo, meus filhos foram rir um pouco com a televisão, até a hora em que se acostumaram a abraçar os livros. Eu vim parar aqui, para escrever o que já está sendo concluído, dividir com vocês essa sensação positiva de que almoço em família faz bem, que abraço de filho é excelente para quem carece de reanimação.

E hoje já são 4, do mês 3.

MUDANÇA DE FOCO

Recebi orientação para deixar de lado, tentar esquecer os países sul-americanos que estão à beira de um conflito bélico. Entendi o porquê da sugestão e, de fato, me vi fugindo de qualquer notícia, comentário, imagem relacionados ao tema. E estou muito bem. Obrigado!

Contudo, o que me aparece no cérebro, por meio de sons e imagens? Brasileiros com viagens abortadas em aeroporto espanhol; espanhóis com permissão de entrada no Brasil negada. O mundo é assim: a Faixa de Gaza, ou o Haiti, ou o Paquistão, ou Kosovo, ou... pode ser em qualquer lugar, pode ser aqui.

Ninguém nunca soube (ou eu nunca soube se alguém disse) e Drummond nunca disse que a "pedra" no caminho tinha sido produção humana. Já reparou? Onde o homem está o distúrbio se faz presente! Arrogância, prepotência, auto-estima exacerbada, poder ou o desejo de tê-lo, enfim, são condimentos que temperam a vontade humana do sentir-se superior a.

Tempo perdido! O sopro de vida não deveria contemplar aridez eterna naqueles neurônios desenvolvedores do mal. O pior: saber que muitos o propagam afirmando a busca de melhor vida para o seu povo. Arre! Quanta pequenez.

Então, respiro fundo e mudo, de fato, de foco. E me delicio ao saber de exposição plástica de Gurgel Mendes em galeria daqui de Fortaleza. Gurgel Mendes passou bom tempo sem expor, sem nunca abandonar sua arte. No tempo do ostracismo, viveu experiências várias, o que determinou fases diversas em sua pintura. já me disseram que os novos quadros estão mais leves, com fluição de imagens mais definidas para o público.

Vou conferir. O convite a mim veio dele próprio, e eu não vou deixar de seguir o chamado. Novo contato, nova aproximação. Em paz, sem qualquer conflito. Vou levar minha câmera e tirar fotos dos quadros (caso ele permita) e com ele. Fará bem a nossos espíritos voltados para as artes. Elas que fazem muitos homens imortais!

E hoje são, já, 7, véspera do Dia Internacional da Mulher. A todas que passarem por aqui, meus parabéns.

UM JOGO DE PALAVRAS

3º período, aos treze

Calma, rapaz! É o que tenho me dito bastante nos últimos dias. Afinal, para que a pressa mesmo? Posso, por acaso, desatar nó em pingo d'água? Tenho engenharia para mudar os caminhos para os burros não darem n'água? Tenho possibilidade de alcançar sem esperar?

Perguntas, apenas... explosões de um nada à procura não de tudo, mas de muito... "Sabe você o que é o amor?" Não sabe? Nem sei! Os humanos, por suas distinções de raça, credo, cor, ideologia... têm criado maneiras próprias de viver, pensar, sentir...

Já ouvi - e sei que muitos também - se dizer que "amar" É só olhar / depois sorrir / depois gostar... Simples assim? Pois então, que olhemos mais; que sejamos mais sorridentes; que gostemos mais. Calmamente, pacientemente, humildemente, sinceramente...

Feito a flor que brota sua cor na naturalidade da manhã. Feito o pequeno pássaro que, com bico longo, suga o néctar beijando a flor. Feito o rio que, sem o sofrimento por resíduos ou represamentos, corre certo e ordeiro seu destino de transbordante vida, até com régias. Vitórias!

"O pensamento vai mais longe?" Calma! Rapaz, não tenha pressa, porque sentir não carece de tempo nem de lugar, posto que se põe em todos os passos, em todas as inspirações, em todos os respingos de chuva, em todo olho de que brote a saudade.

Não, não tenha pressa... A saudade nunca se despede de uma vez para sempre...

INDAGAÇÕES

"Por quem os sinos dobram?" Não sei! Sei que o tilintar deles desperta significados às vezes não compreendidos.

Há pessoas que afirmam ouvir sinos durante alguns atos de amor. Isso semelha muito ao agredido que declara ter vistos estrelinhas! Em ambos os casos, a intensidade foi a constante.

Como o bicho homem é estranho, imprevisível, já se ouviu de muitos: "Pancada de amor não dói!". Afirmo: o mesmo amor dobrador de sinos pode estrelar a visão de alguém.

Os outros animais são simples até na complexidade possuída; nós somos complexos até em nossa simplicidade. O que descobrimos de nós mesmos quando nos investigamos? "Sim e não" são iguais a "não e sim", estabelecendo a lógica de nossas incertezas.

Dialeticamente, quanto mais subimos, mais perto ficamos do momento da descida. Quanto mais encontramos, maior a possibilidade de perder. Quanto mais cremos, maior a possibilidade de duvidar. Quanto mais somos, bem mais fácil deixarmos de ser.

E assim seguimos, julgando vislumbrar um futuro, porém tateando paredes invisíveis, portanto inseguras. E desse modo prosseguimos, certos de que deve sempre haver luz em fim de túnel.

Engraçado... hoje o dia despertou em chuva, e da janela do meu quarto descobri uma escuridão de noite...

O período ainda é o terceiro, mas a casa já é a dos vinte e seis. Aqui não faz tanto frio!





HUMANOS

Creio que somente por causa do latim podemos aceitar que o homem é "humano". Havia prometido e me prometido evitar os assuntos tristes, funebres. Mas o bárbaro bicho homem não quer dar descanso. Eu estava bem, bem tranqüilo, bem bem apaixonado, bem bem bem redescobrindo o lado gostoso da existência... Aí relatam o caso da menina defenestrada pela janela.

Barbárie! Bicho, o homem! Que humano que nada!

Como tenho amor forte, verdadeiro sentimento, por todos os meus filhos, não consigo encaixar em minha "cachola" um acontecimento desses. Uma criança é um poço de ensinamentos puros aos adultos já corrompidos pelos caminhos que determina para sua vida.

Uma criança é leve feito pensamento bom. Por isso ela dança sem saber dançar; por isso ela canta sem saber cantar; por isso ela encanta sem saber que está encantando.

Criança é doce feito as lembranças que se possa ter da infância, em um tempo nos quais pai e mãe seguravam a mão do filho e punham-se a passear pelas ruas seguras da cidade com bons calçamentos e sorrisos amigos.

Criança é meiga feito boa intenção. Ela acaricia sem maldade; ela beija sem malícia; ela abraça porque se sente feliz e protegida; ela sorri porque intue "que o instante existe" e que sua alma "está completa", quando experiencia o bem.

Qualquer criança é mais sábia que qualquer adulto! Ela, por natureza, quer brincar, divertir-se, divertir o outro, divertir-se com o outro, sonhar, devanear, pintar o sete - e o oito... e o nove... e o dez... -, olhar a lua, deslumbrar-se com as estrelas, correr do mar (pra depois afoitar-se nele), nadar nos rios, perseguir os peixes...

Por natureza, toda criança está destinada ao crescimento. Mas elas não deveriam ficar adultas... nesse sentido de que um adulto está predestinado a "endurecerce siempre", para morrer velho e abandonado pelas pessoas.

Não, criança não deveria deixar de existir nunca... principalmente dentro da alma daqueles que simplesmente cresceram com o fim de se tornarem adultos.

O calendário andou. Hoje já somamos quatro dias do primeiro mês em A.

E A GENTE NEM PERCEBE...

Os fatos não têm acontecido, têm nos atropelado, passado por cima e nos deixado estendidos em nossa estrada sem sequer dar uma olhadinha para trás. Contem: quanto dias faz que não venho aqui, falar a vocês?

Na ausência, estive em cidade outras, passei por outras tantas e lugarejos vieram me beijar os olhos, com a alegria das águas enchendo rios e verdificando o que amarelecido estava, o verdadeiro amarelo queimado, quase cinza. Ah!, o sertão; fênix que renasce do chão.

Sertão à parte - que aprendi a levar comigo, como sugeriu Rosa -, minha Fortaleza continua "bela": as áreas de risco, cheias de gente dentro d'água - por causa das chuvas?; as avenidas, bem iluminadas - quase uns 40% delas -, afundam, lama e buracos em ação litigiosa por um espaço a mais; as pessoas mais humildes, ... bem, as pessoas mais humildes... não contam na Fortaleza "bela".

Mas, então, o que é que conta?

Me contaram que o show de Roberto Carlos em comemoração a mais um aninho de Fortaleza foi belo... e caro! Não me contaram, assim, de maneira categórica, de onde saíram os milhões que ele, seus músicos orquestrados e marqueteiros levaram daqui. Estou sendo sincero! Não me contaram isso.

Também me contaram que o evento nada teve a ver com esse ano de eleição. Da mesma forma, ou, com a mesma inocência, Dilma Houssef usou a palavra "comício" em festividade que deveria ser apenas... festividade, congraçamento entre pares (por favor, não leiam "párias").

É irritante e estupidamente engraçado (faltou-me uma palavra certa para o que quero dizer) como aqui em nosso país as coisas costumam acontecer meio sem querer: desigualdades econômico-sociais; atos de corrupção; censura jornalística; crimes de morte; crimes contra a natureza; crimes contra o erário público... Parece que tudo é feito como obra do acaso.

Assim, como esse texto, talvez... Quem sabe não vim aqui por acaso... Quem sabe não falei o que se lê acima meio a esmo... Quem sabe, até, eu esteja até enganado e nada disso esteja acontecendo agora mesmo, nem eu tenha escrito a palavra até três vezes...

E hoje faz somente um dia que festejaram o famoso esquartejamento de um determinado personagem que quis fazer uma Inconfidência...

CHUVA NA MADRUGADA

Quando criança, ouvi muitas vezes minha mãe dizer que desligássemos toda a eletricidade de casa quando estivesse chovendo forte. Eu não entendia bem o porquê, e estranhava o procedimento da luz à velas. Acho que meus irmãos também estranhavam. Meu pai, sempre elegante e cordato com a esposa, desligava a chave geral e acendia as velas. Fui crescendo com medo de relâmpago e trovão, e não afirmo que já o superei.

Mas vejam o que há nessa madrugada: enquanto fico aqui dando corpo a este texto, na minha janela com vidros a noite chora, escorrendo as lágrimas de um céu fechado de nuvens barulhentas. Continuo o texto, não quero parar, apesar de perceber pela visão periférica alguns brilhos rápidos, seguidos com lentidão por barulhos abafados e recordadores, vindos lá de cima.

Encaro a madrugada como quem deseja cumprir um desejo. Não sei a que horas ele se cumprirá - nem se será legitimado. Mas a noite entremeada ao dia ainda escuro vai avançando implacável, e a solidão da chuva derrama gotas de anseios de que o dia nasça, raiando luz sem sustos, clareando os caminhos sem sobressalto qualquer.

Fico olhando as gotas do céu beijando com estalos a vidraça da janela, e largo meus olhos escorrendo pelas veredas que vão-se abrindo - respingos quase calados dos desejos e pensamentos rondando com o vento que sopra nas árvores.

Estou em meu quarto. Meus olhos, na rua, agora encharcada de água e reflexos de luz. Meus ouvidos, prescrutam os receios da infância. Meus desejos e pensamentos...

Agora já estou no três, e no mês das noivas... e das mães...


NOS TEMPOS DO 2010

PALAVRAS DE RETORNO

Eu nem havia percebido o quanto, mas o tempo passou... E já não sou o mesmo - estou dentro do óbvio.

O instante em que estou é exatamente aquele que me diz a certeza de que volto, aos poucos, a esse caminho de vida tecido entre palavras-sopros, vida abundante de tão silenciosa e guardada.

Eu e você leitor dessas linhas somos de alguma forma o que as palavras nos permitem ser; somos o que pensamos, o que dizemos, o que sonhamos - as palavras sempre nos pressionando para o profundo delas, mesmo que não as encontremos enquanto sentidos fáceis e de rápido entendimento.

Apenas somos - mesmo que não saibamos.

E estamos em 2010! Quanto tempo?


11 DE JULHO DE 2011


Usando um clichê, "longo e tenebroso inverno". E que inverno! E quão tenebroso!

Eis que de repente volto, movido não sei bem por qual vontade não bem nítida. Um chamado. Um novo chamado. De mim mesmo por mim, eu que me construo enquanto palavra.

A expressão no texto é a voz de muitas expressões de muitos eus em mim. E como eles querem falar; o eu maior é que muitas vezes silencia o alvoroço, por isso muita vez o silêncio é que reverbera. E fico sem saber de mins.

Eus somamos as informações chegadas pelas sensações. E nos construímos. "Somos o que podemos ser". Então a luta entre o desejo e o que a sociedade impõe.


27 de dezembro de 2011


Novamente uma grande ausência. Que me seja permitido me encontrar aqui com mais frequência. O tempo sempre me furtando tempo para o que é de gosto, alimento-prazer.

Mas... mais um ano finda, esse 2011 tão mais apressado que o 2010. Dá para imaginar como será o 2012, já tão próximo: não se poderá correr menos! Os dias são assim! Não somente os meus; assim caminha a humanidade...

Transitando pela cidade, tão fragilizada e quase em nada bela, cada vez menos Fortaleza, sempre e sempre mais e mais metrópole organizada para estrangeiro ver (e morar, e construir, e impor desejos, e imperar sobre os nativos), desenham-se aos nossos olhos uma transmutação feroz.

Há alguns muitos anos, era comum se dizer e se ouvir que em cada esquina da cidade-sol-o-ano-inteiro existia um botequim, um barzinho, onde se podia fazer arder a garganta com uma caprichada talagada de boa cana, em pé, rente a um balcão esplendorosamente marcado pelas tantas mãos que se lhe espalmavam, amalgamando suor e poeira. O tempo brincava de roçar a vida leve das pessoas, sussurrando (com a cumplicidade do fresco vento arrastando faceiro folhas pelas calçadas e ruas calçamentadas) prazer na pele, no ar, na existência. Devagar, o mundo andava... Ai, que vida boa, meu Deus!

Hoje, em quase toda a extensão de ruas inteiras, o que se vê é a intromissão dos veículos automotores - tantas marcas, tantos tipos, tantos gostos -, cujos rompantes marcam asfaltos com intolerância e bizarria. Imperam pelas ruas, apropriam-se delas; exigem para si atenção desmesurada, subjugando o olhar desmedidamente medroso, acabrunhado, atônito de quem sabe para onde quer ir, mas nem sempre tem nítido o percurso mais seguro a desbravar.

Dois tempos: passado e presente. É possível se imaginar o futuro - que já está se achegando, se avizinhando, se enraizando, se imiscuindo...



03 de janeiro de 2012


Entre o justo e a intransigência.

Pessoas correm pela cidade, sem saberem bem qual caminho seguir, meio que sem rumo. Comerciantes fecham as portas recém-abertas de seus comércios. Canais de televisão digladiam-se para levar aos possíveis telespectadores as imagens mais impactantes sobre o tema prioritariamente em pauta.

De repente, o pânico! Um medo não medo apenas, de tão intenso, vai tomando conta do racional das pessoas, agora já somadas ao universo coletivo. Pavor emergindo das calçadas com andanças apressadas, passos incertos e trêmulos seguindo, quiçá, para seu abrigo maior: a casa, o lar, o aconchego, a paz.

Enquanto não, a insegurança. O sentimento de temor por não ser possível prever uma situação adversa - a tranquilidade de volta - em tempo de acalmar o espírito antes de uma mal maior.

No centro de tudo, o PODER!

A partir dele, o CAOS!


04 de janeiro de 2012


Ao que tudo indica, o "justo" suplantou a "intransigência". Sem medo de errar, saiu vitoriosa a população que apenas deseja viver nessa cidade necessitada urgentemente de beleza, de tranquilidade, de paz; saiu ganhador o estado necessitado de trabalho, crescimento, saúde, segurança... paz. Entre outros desejos, talvez mais simples, porém não menos legítimos.

As calçadas das ruas da cidade, hoje, já cedo da manhã, foram pisadas por passos menos temerosos, mais cientes de si e de para onde deveriam seguir. As feições das pessoas já não expunham traços, rugas de pavor, porém, e até certo ponto, um ar de quem se sente tranquilo. Seguro.

Sem exagero, foi isso o que se viu desde que o sol resolveu acordar acordar a cidade ainda sem forças, com motivos incrédula de que tudo estaria voltando à normalidade. Aos poucos, tudo foi, de fato, voltando ao normal do dia a dia; quando se vai reconhecendo nas pessoas, nas ruas, nas praças, nos transportes aquele cotidiano palpável, a acomodação vem.

Acho que é assim que a cidade recomeça sua trajetória hoje, depois de seis dias de aflição, medo, pânico, terror. Acho que é assim que a cidade vai continuar existindo - sobressaltada entre ações marginais e a alegria de reconhecer em policiais agentes da lei e da ordem.

Mas com um ganho inquestionável: a "intransigência" e o "autoritarismo" devem ser combatidos com inteligência, pertinácia e justiça.


26 de janeiro de 2012


A notícia que nos chegou desde ontem do Rio de Janeiro mais uma vez foi desagradável: supostamente uma explosão subterrânea de gás fez ir ao chão simplesmente três prédios no centro da cidade.

Não se falou até esse instante sobre mortes; mas há "desaparecidos". Assim, já se sabe que, muito além de danos materiais, muitas famílias estão nesse momento sofrendo a aflição de não saberem em que condições encontrarão os seus "desaparecidos".

O que chama muito a atenção é o fato de que já há alguns anos a Cidade Maravilhosa tem sido surpreendida por explosões subterrâneas devido a vazamentos de gás por decorrência de falhas em tubulações. Nada de tão grave, porém, havia ainda acontecido.

Agora a preocupação com esse sistema de fornecimento de energia certamente se ampliará. E já não será sem tempo; a segurança da população do Rio de Janeiro merece essa atenção especial dos governos constituídos.


28 de janeiro de 2012


Não se tratou de uma explosão, como se especulou na noite em que três prédios foram abaixo no Centro do Rio de Janeiro. Hoje se fala que possivelmente o prédio maior, de vinte andares, sofreu abalos estruturais decorrentes de reformas em andamento e caiu, projetando-se sobre os outros dois que também ruíram por terra.

Independente do motivo do desabamento, houve mortes e há desaparecidos. E enquanto famílias choram perdas confirmadas e outras se afligem por não encontrarem um ente querido, uma indagação é feita por quem precisa trabalhar ou morar em construções verticais: "Até que ponto estamos seguros?"

Difícil saber. Há prédios que são erguidos em locais nos quais o solo não é favorável. Outros são levantados onde o solo é bom, mas não se tem um adequado projeto de engenharia. Outros ainda, mesmo construídos em bom terreno e com excelente projeto de engenharia, ficam a desejar em sua segurança, pois na hora da escolha do material alguém entende que pode lançar mão de algo com menor qualidade - e inclui para seus gastos pessoais parte do dinheiro que serviria para a aquisição ideal dos produtos a serem usados no empreendimento.

Seja qual for o motivo, o certo é que é muito duro saber que pessoas morreram porque outras falharam onde não poderiam falhar. À distância, muitos nos comovemos com o fato; quem faz parte dele sempre tem o que perder; mesmo sobrevivendo, sempre haverá um vazio para superar.


09 de novembro de 2012

Algumas poucas palavras


Um texto em cor verde, um verde de esperança. Esperança de que sejam neutralizadas as forças de violência que operam em nosso país, abriguem-se elas onde se abrigarem (presídios, cadeias em delegacias, gangs de rua, crime organizado em morros e favelas, instituições públicas não cumpridoras de seu papel social...).

Há de se entender com urgência porque governantes tanto prometem, quase nada cumprem; há de se criar, urgente e legalmente, condições para que a população possa decidir, de maneira rápida, certeira, verdadeira quem pode e quem não pode permanecer lhe representando, após qualquer eleição, para qualquer cargo.

A violência que se expande pelo país está ceifando vidas inocentes sem a devida preocupação do Estado brasileiro. Durante as recentes eleições municipais, mais uma vez diversas promessas enganosas foram oferecidas à população, dentre elas, soluções de combate à violência; uma boa parte dela nem compreendeu o que estava sendo "doado" - para conforto dos prometentes.

A violência cresce à mesma proporção em que as condições de vida pioram para a maioria das pessoas. Não adianta se dizer que hoje há maior distribuição de renda, que há mais pessoas alimentadas, afastando-se da linha da miséria extrema, que há mais pessoas em habitações melhores etc. etc. etc. Pessoas inocentes estão morrendo e o Estado brasileiro não consegue combater a violência.

Por quê? Exatamente por quê?

O Estado brasileiro não está combatendo a violência!